Arquivo de maio, 2011

Quando criança eu assistia muito aos Trapalhões. O quarteto formado por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias tornava as minhas noites mais divertidas, com seu humor pastelão, meio cearense, meio mangueirense, mas na gestalt funcionava muito bem. Tomado então de um certo saudosismo, confesso que me rendi ao meu lado criança e, assim que tomei conhecimento de que  o box de DVDs com os melhores momentos dos Trapalhões havia sido lançado, fui à loja comprar aquele pedaço da minha infância. Sentei-me na poltrona, com gosto de anos 70 na boca, estourei pipocas e passei algumas horas assistindo a muitos quadros do antigo programa. Depois de um certo tempo vendo as peripécias dos quatro, agora com meus olhos de 39 anos de idade e mentalidade do século XXI, uma coisa me chamou bastante a atenção: a total e absoluta falta do chamado “politicamente correto” nos diálogos de cada esquete. E isso me fez refletir.

Com muita frequência, o “afro-brasileiro” Mussum era chamado de “negão” e “azulão”. Quando aparecia um “homoafetivo”, Didi logo soltava um “hmmm, esse rapaz alegre solicita!”. E por aí vai. O curioso é que a sociedade dos anos 70 e 80 não parecia se incomodar com aquilo, dadas as claques que explodiam em gargalhadas a cada piada. E nem eu me lembro de, na época, me incomodar ou ouvir reclamações.

A verdade é que não pude deixar de imaginar a chuva de processos a que os Trapalhões teriam de responder hoje na Justiça caso o programa fosse ao ar em nossos dias com os mesmos roteiros. O quarteto teria sérios problemas, sob acusações de racismo e homofobia para baixo. Pois, afinal, vivemos na era do politicamente correto.

Por um lado, esse conceito é interessante, pois preserva certos grupos de constrangimentos em determinadas situações sociais. Nenhuma pessoa obesa gosta de ser chamada,  como vi no programa, de “saco de banha”. É ofensivo, traumatizante e desnecessário. Nesse sentido, vejo o politicamente correto com muito bons olhos. É uma expressão de respeito pelo sentimento alheio e merece nossa consideração. Por outro lado,  o conceito torna-se um grande problema em certas situações em que se contrapõe às verdades absolutas do Evangelho.

Só de mencionar “verdades absolutas” tenho certeza que alguém que está me lendo agora já se remexeu na cadeira e pensou “isso não é politicamente correto, cada um tem sua própria verdade”. Pois é. Esse é exatamente o ponto.

Existem certas afirmações bíblicas que são bastante politicamente incorretas mas cuja morte e ressurreição de Cristo tornaram um fato de fé. Um exemplo: o não-cristão vai para o inferno (numa sociedade de minoria cristã, ninguém gosta de ouvir isso). Outro: a mulher deve submissão ao marido (vivemos à sombra do feminismo, então isso arrepia os pêlos de muitas mulheres). Outro ainda: o marido deve amar a mulher a ponto de sacrificar-se por ela (na época do “me casei para EU ser feliz”, esposos não querem escutar isso). E não para aí, podemos desfilar um corolário de fatos bíblicos politicamente incorretos: nem todos os caminhos levam a Deus. Minha verdade não importa, importa uma única Verdade. Minha vida não me pertence, pertence a Deus. A justiça de Deus pune o pecador e castiga todos os que Ele ama. Deus se ira. Jesus só abre exceção para o divórcio em caso de relacoes sexuais ilícitas do cônjuge. Sofrimento faz parte da vida do cristão. É possível ser materialmente paupérrimo e ter uma saúde problemática mas ser amado por Deus. E por aí vai.

Fato é que a Biblia está recheada de afirmações que contrariam o conceito popular e pós-moderno das proposições que satisfazem a todos. Isso porque vivemos na época em que o politicamente correto é agradar todo mundo. “Divorcie-se, afinal o amor acabou”. “O amor de Deus é tão grande que não permitiria que muitos fossem ao inferno”. “O Deus de amor não controla o sofrimento”. “Se você tem fé Jesus vai te curar com toda e absoluta certeza”. “Deus não quer que você seja pobre”. Afirmações como essas têm composto o cardápio de teologias politicamente corretas da Igreja do século XXI.

Mas Cristo nos pede para confiarmos na Cruz. Para crermos em sua soberania e na sua capacidade de gerenciar o desenrolar da História sem querer agradar o barro, mas sim realizar os propósitos do oleiro. E, por isso, somos convidados a afirmar para o mundo aquilo que o mundo não quer ouvir. E, muitas vezes, se não sempre, a afirmar isso também para a Igreja – pois uma enorme parcela da Igreja não quer ouvir o que a Bíblia diz, se for diferente de seus próprios interesses. Jesus morreu e ressuscitou não para nos agradar e nos dizer o que queremos que Ele diga porque assim ficamos mais confortáveis e satisfeitos: Cristo morreu e ressuscitou para nos reconciliar com Ele e com suas verdades… que muitas vezes não agradam.

Por isso, é fundamental que, nesse sentido, sejamos politicamente ressurretos com Cristo. Preciso abrir mão de mim mesmo e de minha vida, tomar minha Cruz e segui-lo. Assim como você. Assim como toda a humanidade. Essa é a maior verdade politicamente INcorreta do Evangelho: eu importo infinitamente menos do que Deus. Seja feita a vontade dEle, assim na terra como no Céu. A minha? Não importa.

Se os Trapalhões fossem ao ar hoje, a época do politicamente correto, provavelmente Mussum não poderia ser chamado de “negão” e Vera Verão de “rapaz alegre que solicita”. Mas hoje, ontem e sempre, na época infindável do politicamente ressurreto, nós teríamos de dizer a Didi, Dedé, Mussum e Zacarias: arrependam-se dos seus pecados e entreguem suas vidas a Cristo, pois Ele é o único caminho, a verdade e a vida – e a caminhada com Ele vai exigir de vocês renúncias diárias de seus desejos e vontades e sua substituição pela pergunta: “Que queres de mim, Senhor?”. E não se esqueça de que existe um Didi no seu trabalho. Um Dedé na sua rua. Um Mussum em Samaria. E um Zacarias nos confins da terra.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Sou um amante das palavras. Como jornalista, escritor e editor sei que a busca pela palavra perfeita é fundamental para que o receptor daquilo que estamos falando ou escrevendo receba a nossa mensagem compreendendo exatamente o que queremos dizer. É como um matemático, que sabe que um numerozinho sequer errado na equação vai alterar o resultado final. Ou um músico, que percebe que uma única nota fora do tom desafina toda a orquestra. Por isso, sou exigente no que se refere à escolha das palavras. Azul é azul, roxo é roxo, púrpura é púrpura e lilás é lilás. Essa minha fixação pelo significado adequado de cada termo me levou a dar especial atenção a um problema que nos últimos anos a Igreja de Jesus Cristo tem vivido cada vez mais: o uso de palavras de forma completamente equivocada e fora de seu significado real. Com isso, discursos baseados em termos (logo: ideias e conceitos) totalmente distorcidos começam a influenciar negativamente as mentes e os corações de muitos.

Um exemplo claro e imediato é a palavra “religião”. Coitada. Tem sido vilipendiada, ofendida, cuspida e crucificada por legiões de cristãos – sendo inocente. Em sua raiz e em seu significado histórico serve para identificar o relacionamento entre o fiel e seu Deus. Do latim “religare”, significa ligar aquele que está na terra a aquele que está no Céu, seja pela oração, pela adoração, o louvor, a leitura da Biblia, a meditação, a solitude, a caridade. Ou seja, praticar uma religião nada mais é do que viver um relacionamento intimo e pessoal entre criatura e Criador, entre servo e Senhor, entre poesia e poeta. Ao pé da letra e do dicionário, “religião” é “culto prestado à divindade”. No entanto, pessoas raivosas contra certos aspectos da vida em comunidade de fé têm se irritado e descontado nessa palavra tão nobre suas dores e frustrações. Surgem assim frases incoerentes e até surreais, como “passei a ser cristão quando abandonei a religião”, “religião mata”, “existem os da graça e os da religião” e outras bobagens nessa linha. O que tais pessoas querem dizer é, na verdade, que foram feridos ou se cansaram de uma “religiosidade hipócrita”, de um “formalismo religioso vazio”, de um “legalismo vivido num ambiente religioso” ou coisas do gênero. Mas, como não compreendem o significado daquilo que falam, mudam o sentido das palavras, chamam Jesus de Genésio, azul de amarelo e… Uma estrutura doente com bases religiosas de “religião”.

E, com isso, põem tudo o que tem a ver com o relacionamento do homem com Deus no mesmo saco que formas hipócritas de simular esse relacionamento. O resultado é que pecam tanto quanto aqueles que criticam.

“Mas, Mauricio, isso é uma mera questão retórica, não é isso o que quero dizer”, você poderia argumentar. Só que, se não é o que quer dizer, lamento: é isso o que está dizendo. Qualquer um que conhece os conceitos básicos de Comunicação Social sabe a regra de ouro dessa área: comunicação não é o que se fala, é o que se entende. Logo, se você usa termos e expressões fora do seu sentido verdadeiro, está provocando naquele que recebe a sua mensagem confusão, equívocos e até mudanças de conceito e atitude com relação às coisas. Só que às coisas erradas. E isso é uma tremenda irresponsabilidade. Logo, não é uma atitude cristã.

Assim, temos uma geração que está crescendo achando que o relacionamento religioso é um mal em si, pois ouvem (muitas vezes de pessoas que admiram e até de pastores-celebridades) que “religião é ruim”. Só que não é! Religião é viver um relacionamento vivo e eficaz com o Pai, o Filho e o Espirito Santo. É viver em intimidade com Deus. O próprio Tiago afirmou que “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tg 1.27). Não crucifique essa palavra e, logo, seu significado inocente, nem a condene ao banco dos réus da fé pela sua ignorância.

Outra palavra que tem sido renegada às galés é “dogma”. Multidões têm apedrejado e estigmatizado esse termo, achando que ele se refere a normas humanas que igrejas opressoras impõem a seus fieis. Mas dogma não é isso. Dogma é toda afirmação  biblica e inquestionável de fé. Ou, pela definição oficial do dicionário, “ponto fundamental e indiscutível de uma crença religiosa”. Vamos fazer uma experiência: você, querido leitor, que já criticou dezenas de vezes os “dogmas” da igreja, crê que Jesus é Deus? Se crê nisso, parabéns: você crê num dogma. Vamos além: você crê na Trimdade? Crê que Jesus nasceu de uma virgem? Crê que Jesus ressuscitou dos mortos? Crê que Ele voltará no final dos tempos para implantar seu Reino eterno? Bem, se você crê em todas essas coisas, você crê em muitos e muitos dogmas.

“Dogma” não é palavrão. Não é algo ruim. Dogmas são os alicerces da nossa fé. São verdades nas quais cremos e que norteiam nossa teologia e, logo, nossa vida prática, cotidiana. Sem dogmas simplesmente não existe a fé cristã. Sem dogmas daqui a pouco vão surgir lideres propondo, por exemplo, que no fim todas as pessoas irão para o Céu, mesmo islâmicos, budistas ou hinduistas. Mas a salvação pelo único caminho, Jesus Cristo, a videira verdadeira…é um dogma. Se você não tomar a exclusividade da salvação por Jesus como um dogma daqui a pouco estará crendo que todos os caminhos levam a Deus e se inclinando para Meca.  Então pense sobre isso e veja se já não é hora de começar a usar as palavras com o significado que Deus lhes deu.

“Religião”, “dogma”… Há muitas outras palavras distorcidas pela ignorância e pela mania do ser humano de repetir como um papagaio acéfalo conceitos que ouviram de lideres cristãos doentes, magoados e que tentam arrebanhar seguidores doentes e magoados com seus discursos cheios de palavras mal utilizadas. Gosto muito do exemplo do vocábulo “fundamentalista”, que se refere a alguém que valoriza o “fundamentalismo”. Num mundo pôs-onze de setembro, esse termo passou a ser associado a fanáticos religiosos, pessoas que fecham seus coracoes ao amor e à graça de Deus e se agarram como fariseus ensandecidos a estruturas religiosas opressoras e desumanas. Só que há uma questão aqui: O significado de “fundamentalismo” é, etimologicamente, lindo: “Doutrina que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal dos textos religiosos”. Isso fala de alguém que tem fundamentos sólidos. E fundamentos são alicerces, alicerces sobre os quais o cristão precisa construir a casa de sua fé. Jesus mesmo ratificou a importância de edificar nossa vida sobre fundamentos bem estabelecidos: “Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces [fundamentos, grifo meu] na rocha” (Mt 7.24,25)”. Em resumo, Jesus estava afirmando com todas as letras que fundamentalista é aquele que edifica sua casa sobre a Rocha.

Assim, para a pessoa que não busca compreender o sentido dos termos além daquilo que os lideres adeptos de slogans e frases feitas lhes ensinam, “fundamentalista” é apenas um talibã. Um fanático desvairado e desalmado que se prende a um legalismo vazio para oprimir os cristãos. Mas é importante saber que “fundamentalista” no seu sentido original é acima de tudo alguém que conduz sua fé sobre fundamentos sólidos. Fundamentos inegociáveis, como a divindade de Jesus; a salvação pela graça somente, mediante a fé; a coexistência em igual potência do amor e da justiça de Deus… E por aí vai. E os que renegam o “fundamentalismo”, nesse sentido, correm o risco de se tornar relativistas e até hereges. Pois sua casa de fé foi construída sobre o terreno arenoso das possibilidades (“Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda” – Mt 7.26,27).

O mesmo se aplica a “ortodoxia”. Para muitos, isso é sinônimo de coisa velha, mofada, ultrapassada. Não sabem que o ortodoxo é aquele que se guia pelo que é sólido, que foi provado e aprovado pelos séculos. E que não se deixa levar por modismos de fé ou ventos de doutrina. O dicionário define “ortodoxia”, pasme você, como “doutrina declarada verdadeira”. Ou seja, quem é contra a ortodoxia é contra as doutrinas verdadeiras! Só que ortodoxo é aquele cristão bem estruturado, que ouve pastores-poetas dizerem que Deus não esta no controle das tragédias e não se deixa levar por suas palavrinhas bonitas. O ortodoxo é aquele que sabe que uma afirmação bíblica dura e dolorosa vale milhões de vezes mais no que tange à vida eterna do que um verso de Clarice Lispector, Caio F. Abreu ou Vinicius de Moraes (poetas que amo, mas que não têm nenhum valor canônico). O ortodoxo mantém-se fiel ao conselho dos sábios em vez de seguir como uma vaquinha de presépio a fúria revolucionaria de jovens teólogos cheios de testosterona, ávidos por deixar sua marca na história confrontando antigas verdades com novidades perigosas. O ortodoxo sabe incorporar na sabedoria dos séculos aquilo que os novos tempos trazem de bom sem mudar a essência da fé e sem atacar a linha religiosa que por séculos conduziu os perdidos a Cristo. O ortodoxo é o que aconselha Roboão a corrigir os erros de Salomão mas corre o risco de ser ignorado porque “afinal, é ortodoxo”.  Então, diante disso tudo, o antiortodoxo (que não chega a ser heterodoxo, é simplesmente radicalmente contrário ao que considera ser ortodoxo) chega e diz “cala a boca, velho, não importa que o que você diga é bíblico, pois você é um ortodoxo”.

Palavras existem por uma razão: para significar algo. Se você toma uma palavra e lhe atribui um significado diferente, está fraudando o sentido do que é dito. E fraude, lembremos, é pecado. Por outro lado, uma das belezas da língua é que ela é viva, está em constante mutação.  A cada dia novos significados são atribuídos a antigos termos. Isso não é errado, é natural e até desejável – caso contrário, até hoje estaríamos falando latim. Mas o x da questão aqui é que se você deseja atribuir um novo significado a uma antiga palavra, precisa explicar muito bem a quem ouve o que está querendo dizer. Escrever no twitter “Existem os da graça e os da religião”, por exemplo, é uma estupidez e uma irresponsabilidade sem tamanho. Esquece quem diz coisas como essas que está sendo lido por milhares de jovens que ainda estão formando seus conceitos, muitos dos quais não têm ainda bagagem intelectual ou conhecimento teológico suficientes para compreender e julgar o que estão lendo. Não se muda o sentido de uma palavra sem anunciar em textos de começo, meio e fim aquilo que se inventou. Quem assim o faz com termos referentes à fé presta um terrível desserviço à causa de Cristo.

Tenho visto, por exemplo, o massacre ensandecido que alguns desinformados da fé têm imposto à palavra “tradição”. Em seu afã por inventar um Evangelho que ponha Jesus de calça jeans, cabelo arrepiado e ouvindo Linkin Park, os assassinos da tradição impõem sobre aqueles que os ouvem uma  cegueira histórica absolutamente emburrecedora. Tentam fazer parecer que “tradição” são ensinamentos e práticas de velhos caquéticos que vivem na idade da pedra e que só servem para matar a alegria da graça de Deus. Mas não é nada disso. Tradição é toda a estrada que nos trouxe até aqui. Tradição são dois mil anos de mártires que deram seu sangue por Cristo. Tradição são dois mil anos de homens e mulheres dos quais o mundo não era digno, que mergulharam nas Escrituras e queimaram suas retinas estudando a Palavra de Deus para formular conceitos teológicos que, hoje, os críticos da tradição pregam em suas comunidades. Tradição são dois mil anos de joelhos no chão, viagens missionárias feitas no lombo de cavalos, sangue, suor e lágrimas pela causa de Cristo. Tradição são dois mil anos de vidas tão devotadas à mensagem da Cruz que deveríamos morrer de vergonha por achar que nosso evangelho de ar condicionado e suquinho de laranja é grande coisa. No mínimo, temos de honrar os antigos que construíram a tradição que herdamos e hoje dita a fé que temos rejeitado, púberes petulantes que somos.

Quer combater os erros e abusos da igreja? Combata. Quer criticar o que acredita que deve ser criticado? Critique. Mas, por favor, combata a coisa certa. Critique o culpado. Injustiça contraria o senso de justiça de Deus. Não ponha no banco dos réus aqueles que são inocentes. Use as palavras certas. E não embarque no discurso revolucionário de lideres cristãos carismáticos que dizem o que você quer ouvir apenas para se promover – manipulando e distorcendo a língua portuguesa. Pois dizer que 1 + 1 = 5 é fácil. Corrigir os danos que isso provoca é que é o problema.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Nos anos mais recentes surgiu no seio da Igreja de Jesus Cristo um  movimento de prática de fé que se tornou conhecido como igreja emergente. Num resumo bem resumido e simplista (para um aprofundamento no conceito leia aqui e aqui), trata-se de uma forma de se fazer igreja sem que o fiel precise se separar das expressões culturais da sociedade secular. Assim, o cristão emergente, por exemplo, escuta músicas seculares; pode usar brincos, piercings e tatuagens; até mesmo fala palavrões sem o menor drama de consciência (atéd renega os pudores de praguejar no púlpito, como já vi). Atitudes como essas são vistas nesse contexto apenas como meras manifestações da cultura e, como tal, não constituiriam pecado, escândalo ou equívocos teológicos.

Cada vez mais a Igreja Emergente conquista novos adeptos, em especial entre os jovens, que ficam felizes por poder manter antigos hábitos e gostos pré-conversão e não ser ridicularizados pelos colegas não-cristãos por parecerem astronautas de uma subcultura evangélica. Para atender aos anseios desse nicho do universo cristão, têm surgido no Brasil e no exterior líderes extremamente carismáticos que, ao adotar linguagem, gostos, práticas e, principalmente, uma estética visual charmosa e sedutora (seja na linha da elegância ou do despojamento), conseguem arrebanhar um grande número de seguidores. Assim, esses líderes emergentes assumem uma aparência up-to-date, muitas vezes à base de um vestuário modernoso e cortes de cabelo e óculos moderninhos, ou barbas Los Hermanos – dependendo do estilo. Também elaboram um discurso que exerce magnetismo sobre as novas gerações. Por fim, investem pesado em tecnologia e redes sociais – para, por exemplo, produzir podcasts bem elaborados e fazer sua mensagem correr solta pelos Youtubes e Twitters da vida.

Historicamente, é facílimo explicar esse fenômeno. Quem se interessa um pouquinho que seja por História da Igreja sabe que o Corpo de Cristo sempre viveu num movimento pendular. Depois de nascer e crescer vendo as antigas gerações viver seguindo um modo de ser, pensar e agir, as gerações seguintes buscam vivenciar a fé de um modo oposto ao de seus pais. É como um pêndulo, que depois de se inclinar completamente para a esquerda se lança com toda a força para a direita… para tempos depois voltar com tudo para a esquerda. E depois a direita. E a esquerda. E assim por diante.

É fácil constatar isso ao longo dos vinte séculos de Igreja cristã: em contraposicao à opulência da igreja imperial romana ganharam espaço os movimentos monásticos. Depois, em reação à estagnação intelectual da Idade das Trevas surge o escolasticismo. Em resposta aos abusos do catolicismo romano do século XVI, vem Lutero com suas propostas de reforma. Depois, com o iluminismo do século das luzes, a Igreja busca fugir do transcendentarismo e se inclina tanto para o racionalismo e o pragmatismo que mergulha nas águas do liberalismo teológico – que, por sua vez, viria tempos depois a ser confrontado por pensadores neo-ortodoxos como Karl Barth. E quando a Igreja Protestante cai no formalismo, surgem os pietistas, os puritanos, os morávios, os metodistas: grupos sedentos por uma espiritualidade mais impoluta e menos enrijecida e engessada. Assim foi a caminhada da Igreja ao longo dos séculos: agindo e reagindo, em movimentos pendulares de repulsa ao que vinha antes. Sempre, é claro, com motivações nobres e sinceras, é importante ressaltar.

É quando chegamos ao final do século XX. A Igreja brasileira vivia então momentos de extremos e abusos. De um lado, havia uma igreja extremamente ascética, que repudiava como satânicas práticas como ouvir música secular (“do mundo”), usar adereços exagerados (brincos, piercings e tatuagens, principalmente), frequentar certos ambientes de lazer e usar vocabulários considerados mundanos (como palavrões, gírias e similares), entre outras coisas. Também havia uma igreja muito formalista, com cultos friamente litúrgicos, comportamentos sóbrios e respeito a uma hierarquia eclesiástica bem definida. Por fim, os neopentecostais tomavam conta da mídia e do imaginário popular, com suas práticas barulhentas, teologia de prosperidade e propostas quase espíritas. Em comum, todas essas facetas do movimento evangélico adotavam uma postura exclusivista, um vocabulário próprio (quase um dialeto), uma estética musical característica e visuais na maioria das vezes caricatos. Foi nesse contexto que brotou um grupo descontente, que reagiu a tudo isso e arremessou o pêndulo para o outro lado, fugindo de todos esses modelos. Nascia assim a Igreja emergente – primeiro nos Estados Unidos e, como é moda na colônia americana que somos, em breve esse modelo foi importado ao Brasil, que diante desse quadro todo recebeu a mensagem emergente com imensa alegria.

Os méritos

Essa forma de se fazer igreja tem seus méritos. Jesus vivia inserido na cultura de sua época e almoçava com publicanos, convivia com prostitutas, ia até aqueles que eram os proscritos da sociedade. Esse argumento é fiel ao relato da Bíblia e, por isso, justifica a imersão social dos cristãos na vida secular que o cerca. A criação de uma subcultura gospel também isola e caricaturiza os cristãos. As tintas emergentes embelezam então a igreja, na medida em que busca apresentar o cristão como um ser humano normal e não uma aberração social.

A aproximação da igreja emergente de aspectos belos da cultura popular também é louvável, afinal, a graça comum de Deus concede ao homem natural talentos que lhes permitem exaltar sentimentos profundos, realidades da alma, a obra das mãos do Criador. Sim, é possível se encantar com músicas do Teatro Mágico, óperas de Bizet, poesias de Vinícius de Moraes, vozes com a de Charles Aznavour – sem necessariamente estar pecando.

O maior triunfo da igreja emergente é, assim, aproximar o cristão do universo secular de modo que possa usufruir aquilo de bom que este lhe oferece ao mesmo tempo em que está próximo o suficiente para compartilhar com ele as boas-novas da salvação de uma maneira tal que não assuste o perdido com uma estética visual ou vocabular alienígena. Mas o movimento emergente oferece sérios riscos.

Os riscos

O grande perigo da igreja emergente é se tornar mais emergente do que igreja. Ou seja: estar tão próxima da sociedade secular que venha a flertar mais com o mundo do que com Cristo. Recentemente, um fato me levou a uma profunda reflexão sobre isso: o roqueiro Ozzy Osbourne veio ao Brasil. Para minha surpresa, vi um pastor, líder de jovens e consequentemente bastante influente em seus arraiais, comentar no twitter que tinha ficado triste por não poder ir ao show dele. Quero deixar claro que não entendo como pecado gostar de rock, até porque há bandas muito boas que usam esse estilo musical para pregar mensagens positivas, como Bloodgood, Tourniquet, White Cross e outras. No Brasil, a representante mais evidente do rock gospel é a excelente Oficina G3, que já me levou às lágrimas muitas vezes com suas letras pungentes. Esse não é o ponto. Como diz um irmão que é músico, não existe “dó maior endemoniado” ou “ré sustenido ungido”. Música é música e estilo é estilo. Mas temos que discernir os limites.

Eu ouvi muito rock ao longo de minha vida. Antes de minha conversão frequentei muito esse universo e tinha inclusive uma banda, a falecida A Corja. Fui a shows de grupos como Iron Maiden, Rolling Stones, Guns and Roses, AC/DC, Ratos de Porão e similares. Estive no primeiro Rock in Rio, em 1985, com 13 anos de idade, saltando, gritando e levantando a mão com os dedos indicador e mínimo em riste – sinal característico conhecido por devil´s horn, o chifre do diabo. E, por isso mesmo, conheço muito bem o que é isso e que tipo de filosofia cada banda transmite em suas letras e atitudes. Então ver um pastor, um sacerdote cristão, dizer que ficou triste por não ir ao show de Ozzy acendeu a luz vermelha.

Para quem não conhece, Ozzy Osbourne (essa simpática figura da foto acima) é o intérprete, por exemplo, de músicas como “Mr. Crowley”, uma ode a Alister Crowley – o fundador da Church of Satan, a Igreja de Satanás. Ou ainda “I like death”, em que o músico faz uma alusão explícita a ser um “anticristo”. E mais: “No place for angels”, em que Ozzy assume o personagem de um anjo caído e chama Jesus de “mentiroso”. Sem falar de “Rock´n Roll Rebel”, cuja letra é uma crítica ferrenha a ministros cristãos. E por aí vai. Dá para imaginar um pastor, um sacerdote, vibrando e cantando ao som de músicas que transmitem mensagens como essas? Isso, então, é sintomático.

Na ânsia por não serem ETs na sociedade, os emergentes correm o risco de brincar com fogo e se queimar. Suas críticas ferrenhas a hierarquias e liturgias apenas condenam formas e não acrescentam nada ao Corpo de Cristo além de desavenças. Há até os emergentes para quem a expressão “igreja” virou um palavrão. Suas igrejas são chamadas “comunidades”, embora… sejam igrejas, semântica à parte. O discurso inclusivista dos emergentes corre o risco de acabar apenas virando preconceito ao avesso: inclui-se o excluido, mas exclui-se o incluido que age de modo tradicional. Exaltam-se as expressões artísticas seculares ao mesmo tempo em que satanizam-se hierarquias e autoridades eclesiásticas. Defende-se a cultura e a estética populares atrás de um escudo de graça mas voltam-se todas as armas em direção a modelos de igreja que diferem do emergente – e, com isso, torna-se bem comum ver agressões verbais, ironias, sarcasmo e desprezo desses irmãos a outros legítimos irmãos em Cristo que não coadunam de suas visões. Assisti a algumas twitcams de emergentes e confesso que fiquei bastante chocado com a agressividade dirigida por eles a outros cristãos que não seguem seus modelos. E, com, isso, ferem o amor phileo proposto por Cristo. Desliguei essas transmissões no meio, entristecido que fiquei com uma prática tão distante da teoria.

Em defesa de uma não-segregação do mundo, muitos emergentes acabam segregando partes do Corpo. Eu mesmo pude perceber como companheiros fiéis do twitter deixaram de interagir comigo quando expressei pensamentos mais ortodoxos (em breve falarei mais sobre isso em novo post aqui no APENAS). Em defesa de uma aculturação dos cristãos, adota-se com normalidade palavrões até de púlpito, mas satanizam-se os jargões evangélicos. A coerência disso? Nenhuma. Na ânsia por se afastar pendularmente o mais distante possível dos modelos de vida cristã das décadas anteriores (a famigerada “tradição”), a igreja emergente corre o sério e grave risco de lançar-se para um extremo que pode causar muitos estragos. E que, convenhamos, não traz nenhum avanço para a causa de Cristo. Na gana por ser diferente da “antiga igreja tradicionalista”, o movimento emergente periga tornar-se apenas uma “nova igreja antitradicionalista”.

Que fique claro que há excelentes propostas dentro da igreja emergente. Muita gente vem conduzindo suas propostas dentro desse modelo com decoro bíblico. Porque, no final do dia, o modelo emergente é exatamente isso: apenas mais do mesmo. Apenas mais uma casca diferente dentro da qual corre a mesma seiva. Não melhor, não pior. Nas igrejas (perdoem-me, “comunidades”, não quis ofender) emergentes, pessoas são salvas, curadas, libertas e vivem vidas de fé genuínas, ajudando o próximo. Exatamente da mesma forma que acontece na mais ascética igrejinha pentecostal do interior ou na mais tradicionalista e litúrgica denominação reformada. A ação de Deus é a mesma.

Porém, o orgulho de ser diferente pode constituir pecado. O exagero ao ser diferente pode conduzir ao pecado. A aproximação do ambiente secular pode valorizar o pecado. A linha é tênue. E o pecado, nunca é demais lembrar, habita em qualquer modelo de igreja em que haja seres humanos.

Que os emergentes não caiam nas tentações iminentes que caminhar sobre a fronteira oferece. Só assim os historiadores do futuro poderão olhar para esse movimento dos nossos dias e avaliar que ele foi uma boa oscilação do pêndulo. Pois há uma grande chance de a igreja emergente entrar para a História como uma bela tentativa mas um retumbante fracasso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.


Deus é amor. Isso é um fato básico e inquestionável da fé cristã. Não é preciso ser um grande teólogo para apreender essa verdade; de fato, nem mesmo é preciso ser cristão para ter conhecimento disso. Mas existe algo sobre essa afirmação que merece uma reflexão: o que isso significa? Quais as implicações do fato de Deus ser amor? De que modo isso afeta a teologia em que acreditamos – e, por conseguinte, nossa vida prática? Pode parecer algo tão óbvio que nem mereça discussão, mas fato é que a má interpretação do conceito da essência amorosa de Deus é justamente a gênese de muitos e grandes problemas e até de heresias que têm surgido no seio da Igreja nesse início de século XXI.

Vamos pensar um pouco sobre isso então. A essência de Deus é o amor. Agora: nós, humanos, só conseguiremos compreender plenamente o que isso significa se formos capazes de encaixar esse conceito divino essencial no que cada um de nós percebe como sendo amor. Uma analogia, para ficar mais claro: imagine que numa ilha distante só existam pássaros brancos. Automaticamente, todos seus habitantes associam o conceito de “pássaro” à cor branca. Um dia você atraca nessa ilha, encontra um nativo e tenta explicar para ele o que é, digamos, um urubu. Se disser a ele apenas que “o urubu é um pássaro”, automaticamente ele vai visualizar o urubu como uma ave branca. Afinal, é o único conceito de “pássaro” que ele conhece. Do mesmo modo, se na concepção de uma pessoa o conceito de “amor” é X, se você lhe disser que “Deus é amor”, automaticamente esse indivíduo compreende como “Deus é X”. Mesmo que a essência de Deus seja, por exemplo, Y. É uma mera questão de formar um signo por significados e significantes adequados e compreendidos por todos.

Diante disso, a pergunta que devemos nos fazer é: o que a civilização brasileira do século XXI entende como sendo “amor”? Pois é ao detectarmos qual é o sentido que esse conceito tem no inconsciente coletivo do brasileiro de nossos dias que conseguiremos visualizar como essa mesma civilização compreende o fato de Deus ser amor. E é exatamente aqui que começa o problema, uma vez que o conceito primário de “amor” para você e para mim é totalmente alheio à Bíblia. Trata-se do amor dos contos de fadas.

Geração após geração, século após século, década após década, nós ensinamos para nossas crianças que “amor” é aquilo que ocorre entre um príncipe e uma princesa nas fábulas e histórias de ninar. Ou seja, um grande e utópico sentimento destituído de implicações práticas, exigências ou contrapartidas. As inocentes histórias que crescemos ouvindo de nossos pais, professores, desenhos animados e outras fontes de formação de conceitos condicionam pavlovianamente gerações inteiras a abraçar uma ideia de amor que, antes de qualquer coisa, é um sentimento meloso, paternalista e ultraprotetor.

Repare: a princesa vê o príncipe e, apenas por olhar para aquela figura divina passa a amá-lo eternamente (e vice-versa). Não o conhece. Mal ou nunca conversou com ele. Às vezes a donzela está até mesmo dormindo e só toma conhecimento do “amado” após o beijo que arranca suspiros de todos. Isso na vida real seria tão esdrúxulo que se a sua filha decidisse se casar com um homem que mal conhecesse, no mínimo você teria uma séria conversa com ela. Mas nos contos de fadas… ah, o amor é lindo! E toda um geração cresce acreditando que amor é aquilo. Assim, somos condicionados desde os primeiros anos de nossas vidas a associar amor a uma sensação da qual nasce um relacionamento que não exige nada, que não tem contrapartidas – pois, afinal, o príncipe ama a princesa in-con-di-cio-nal-men-te, sem precisar renunciar a nada, sem uma gota se sacrifício. E mais: é o amor do príncipe que faz com que ele pegue a princesa nos braços e a carregue sem permitir que ela sue ou se canse. Que põe a capa sobre a poça de lama para que ela não suje o sapatinho de cristal. Que faz de tudo para que ela não tenha um incômodo sequer. É um amor de gente bastante mimada, convenhamos.

E,  claro, esse amor dos contos da carochinha é complacente. A princesa nunca exige nada do príncipe. O príncipe não fica chateado com nada que a princesa faça. Eles apenas cantam e dançam, cavalgando sorridentes corcéis de crinas bem escovadas por prados verdejantes, cercados de cervos saltitantes e meigos coelhinhos de olhos grandes. É um amor de pura doação, poético, que não senta para cobrar atitudes. Que não demanda nenhuma renúncia. Basta entrar no castelo e a única exigência que se faz é que se seja feliz para sempre.

Esse conceito de amor de contos de fadas está tão introjetado no inconsciente coletivo que basta examinar as comédias românticas de Hollywood ou os grandes romances do cinema (que não passam de contos de fadas para crianças crescidas) e ver que o conceito se repete. Mais ainda: o modelo de sucesso das telenovelas da Globo justamente faz tanto sucesso porque segue a ideia introjetada no mais profundo de nossa mente desde nossa infância do amor-sentimento-nada-exigente: desde que haja aquele “sentir” arrebatador vale trocar o marido pelo amante, transar antes do casamento ou o que for e todos aplaudem. Sem exigir nada em troca, sem renunciar, sem se sacrificar pelo outro: basta suspirar, dar um grande beijo na boca e… ai ai…

Dor torna-se, então, por essa perspectiva, um conceito alienígena ao amor dos contos de fadas. Sofrimento quem impõe é a bruxa má, o príncipe jamais permitiria que sua princesa furasse um dedinho numa agulha de roca. Tristeza? INCONCEBÍVEL! Repare: o amor do conto de fadas é aquele em que (e isto é um ponto fundamental!) o ser amado vive feliz para sempre.

Pois é esse conceito de “amor” que ensinam a todos nós desde a nossa primeira infância, pela leitura de continhos de fadas, depois pelos desenhos animados, por fim pelos filminhos sentimentaloides. Somos condicionados, adestrados, ensinados, acostumados a que isso sim é amor.

O amor de contos de fadas aplicado a Deus

E de que modo esse conceito de amor de contos de fadas se aplica a Deus? Simples: quando então falamos que “Deus é amor”, automaticamente associamos o amor divino a esse tipo de amor fictício. Logo, enxergamos o amor de Deus como algo sentimental. Meloso. Poético. Que jamais poderia exigir do ser amado renúncias. Que torna inconcebível a ideia de sacrifício. Que exclui veementemente o amador permitir o sofrimento do amado. O Deus que é amor se torna, assim, um ser que não pode de jeito nenhum exigir algo de quem Ele ama, porque, na nossa cabeça, isso o tornaria alguém destituído de amor. Na nossa concepção de amor, formatada por anos de condicionamento à base de contos de fadas, telenovelas e filminhos água com açúcar, um Deus de amor jamais poderia exigir contrapartidas, jamais poderia estabelecer bases, sua aliança com o ser amado seria complacente, de autoanulação, uma eterna devoção dEle a nós. Uma eterna lua-de-mel.

E mais: por essa perspectiva, o amor de Deus tornaria inconcebível que o ser amado por Ele sofresse, sentisse dor, passasse maus bocados. O ser amado por Deus, na nossa mente pré-programada por contos de fadas, tem obrigatoriamente que fazer com que sejamos…felizes para sempre. O príncipe celestial jamais permitiria que a sua princesa-noiva-do-Cordeiro sofresse, pois senão ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Então, a ideia de alguém que ama e permite o sofrimento do amado é um contrassenso, não conseguimos admitir, não aceitamos. E começamos a encaixar a nossa revolta em conceitos bíblicos: um Deus que ama mas permite o sofrimento não tem… graça.

É aí que começam a surgir os problemas – um nome elegante para heresias. Para o indivíduo condicionado ao conceito do amor de conto de fadas, um Deus que ama não permitiria que milhares morressem num tsunami, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Um Deus que ama não permitiria que centenas morressem num deslizamento de terra na região serrana do Rio, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Um Deus que ama não permitiria que milhões fossem para o inferno, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Um Deus que ama não imporia um código de ética, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa – e uma bruxa legalista. Um Deus que ama não exigiria o cumprimento aos seus mandamentos dolorosos, pois aí ele não seria o príncipe da graça, seria a bruxa do legalismo. Um Deus que ama não teria verdades absolutas, pois aí ele não seria o príncipe, seria uma bruxa que transforma conceitos como “dogma” e “doutrina” em palavrões abomináveis. E esse conceito humano, infantil e fictício de amor começa a tomar ares de teologias.

E nós adoramos isso! Adoramos que Deus não mande muitos para o inferno, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre. Adoramos que Deus não esteja no controle das tragédias, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre.  Adoramos que Deus não exija de nós que nos sacrifiquemos para cumprir seus mandamentos, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre.  Adoramos que Deus nos proponha uma graça frouxa e destituída de renúncias daquilo que nos é conveniente e agradável por obediência e submissão a Ele, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre.  Confeccionamos teologias que fazem do Deus da Bíblia um deus de contos de fadas. Ou seja: um Deus que viva o amor como Cinderela, Branca de Neve ou Rapunzel viveram. Mas não é isso que a Bíblia diz.

O conceito bíblico do amor

A Bíblia Sagrada nos revela muitos aspectos da pessoa de Deus que os contos de fadas jamais associam aos seus personagens apaixonados. O mesmo Jesus que é a suprema prova do amor dvino (Jo 3.16; Fp 2.7-9) é o Deus encarnado que afirma: “Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’ será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mt 5.22). Ou ainda, que devemos ter medo “daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (Mt 10.28), ou seja, Deus. Não dá para imaginar isso sendo falado sobre o príncipe da Branca de Neve, não é? Logo, por associação, na cabeça da civilização adestrada pela ficção pueril não dá para imaginar isso sendo falado sobre o Deus da Bíblia.

Assim, as pessoas, confusas com esse suposto paradoxo, começam a buscar explicações. De repente, o Deus que permitiu que Jó passasse por mais de 40 capítulos de sofrimento, dor, decepção, lágrimas e angústia é apenas fruto de uma fábula. Jó agora deixou de existir. virou uma metáfora. Aquele fato nunca aconteceu. Pois o Deus que ama como nos contos de fadas jamais deixaria que seu querido passasse por aquele sofrimento. Agora o Deus da Bíblia não controla mais forças da natureza e outras calamidades, pois um Deus que ama como nos contos de fadas e nos filmes de Julia Roberts e Sandra Bullock jamais estaria de acordo com genocídios, tsunamis, terremotos, Hitlers, Pol Pots e similares. Não, isso não condiz com o caráter de um Deus que quer que sejamos felizes para sempre.

Então, dizemos que o Deus que controla as forças da natureza é uma referência às deidades greco-romanas-pagãs que as controlavam. Esquecemos que Jesus acalmou o vento e a fúria dos mares com uma ordem, esquecemos que o Senhor conteve as águas do Mar Vermelho e do rio Jordão, consideramos inconcebível que esse Deus tenha provocado o dilúvio de Noé, que dizimou milhares. Ah, claro – dizem os teólogos adeptos do deus de contos de fadas – essas histórias são metáforas, são fábulas. Embarcamos no liberalismo teológico, numa teologia de relacionamento ou de universalismo que põem para fora do ser de Deus a pontapés os seus propósitos insondáveis, os seus planos elevados, a sua realidade infinitamente superior. Forjamos um deus que não compactuaria com dores e sofrimentos, quando Isaías 53 nos afirma que Jesus foi “ferido”, “moído”, “oprimido” e “afligido” – e isso desde antes da fundação do mundo.

Dizem esses teólogos poéticos que Deus jamais determinará o sofrimento das pobres vítimas da tragédia no Japão. Mas a Bíblia diz sobre o próprio Filho Unigênito do Deus que é amor que “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar” (Is 53.10). Sobra a leitura de 1 Coríntios 13 mas falta a leitura de Romanos 9, por exemplo, onde o Deus que é amor afirma: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão” (Rm 9.15). E aos que não concebem um Deus que não aja segundo as vontades humanas ou a teologia dos contos da carochinha, o apóstolo Paulo dá o ultimato cinco versículos à frente: “Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus?” (Rm 9.20). E logo depois: “E se Deus, querendo mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para a destruição?”. Olha só: o Deus que é amor se ira! Uma ira, aliás, explicitada em numerosas passagens, como Nm 22.22; Dt 4.25; Dt 6.15; Dt 7.4; Jo 3.36; Rm 1.18; Rm 2.5; Rm 3.5; Rm 5.9; Rm 9.22; Ef 5.6; Cl 3.6; Hb 3.17; Hb 4.3; Ap 14.10; Ap 14.19;  Ap 15.1; Ap 15.7, entre outras.

Sim, o amor de Deus convive com sua ira. E o não-cumprimento de sua vontade exige o cumprimento da justiça divina. Pois a Bíblia escancara de Gênesis a Apocalipse o fato incontestável de que Deus tem um código de certo/errado. Ou seja: por definição, tem um padrão moral. Um padrão ético. E exige de nós que o cumpramos, mesmo que precisemos renunciar a nossas vontades, ao que nos é conveniente, ao que fazemos em nome de uma graça barata. “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama”, diz Jesus em Jo 14.21. O mesmo Jesus de amor que em Jo 14.15 vaticina: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos”. Sim, o amor de Deus está condicionado à obediência a seus mandamentos (ou: normas, dogmas, decretos ou o nome impopular que se queira dar a aquilo que o Senhor determina que façamos em cumprimento a Sua vontade). E como Jesus é o Deus da graça, fica claro que sua graça e seu amor trafegam em conjunto com a obediência a seus mandamentos. O que, na cabeça de muitos, faria dele um Deus legalista, veja você.

Sim, pois há aqueles que apostam na teologia do complacente Deus Papai Noel, um velhinho bonachão que nos vê desobedecer seus valores (explícitos nos mandamentos da graça) e passa a mão na nossa cabeça, quando o Deus da Bíblia, que é amor, afirma:  “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará” (Mt 10.38, 39). Ou seja, é um Deus que exige renúncia por amor a Ele. Renúncia de nós, de nossos desejos, de nossas vontades, de nossos prazeres, daquilo que nos é mais conveniente, daquilo que exige esforço de nós. Mas graça não é sinônimo de moleza. “O Reino dos céus é tomado à força” (Mt 11.12). Quer desfrutar do amor e da graça de Deus? Então ouça o que a encarnação do amor diz: “”Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34).

Conclusão

Vivemos dias em que um conceito equivocado sobre o que significa “amor” está fazendo muitos cristãos acreditarem que o Deus que é amor não é mais soberano sobre tudo o que acontece, ou não condena mais os filhos da perdição ao fogo eterno, ou não exige obediência à custa de renúncia pessoal. Pintamos um Deus que, em nome de um amor que não é o amor bíblico, nos isenta de sofrimentos ou nos dispensa do cumprimento de seus mandamentos.

O Amor bíblico está longe de ser o amor dos contos de fadas. O Amor bíblico permite que José passe décadas sofrendo como escravo e presidiário por um bem maior. O Amor bíblico permite que o príncipe do Egito passe 40 anos no deserto de Midiã e depois mais 40 no deserto do Sinai para cumprir seus planos soberanos. O Amor bíblico entrega Seu Filho unigênito para sofrer injustamente por multidões que não mereciam. Isso é o Amor bíblico: um Amor que custa caro. Que é dado pela graça, mas que custa no mínimo o preço da obediência e do respeito à vontade soberana de Criador dos Céus e da Terra. É um Amor que não isenta aqueles que são mais amados de serem “torturados (…) enfrentaram zombaria e açoites; outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão, apedrejados, serrados ao meio, postos à prova mortos ao fio da espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos e maltratados” (Hb 11.35-37).

O Amor bíblico é sacrificial. É um Amor que permite catástrofes e sofrimentos porque a mente de Deus é muito mais elevada que a nossa e chega a ser arrogante tentar compreender o porquê de o Senhor optar por permitir tragédias que, dentro do grande esquema das coisas, poderão cumprir um propósito maior que não entendemos  (afinal “agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”). O Amor bíblico cumpre a Justiça divina e condena muitos sim à perdição eterna, pois é a profundidade do vale que determina a altura da montanha da eternidade ao lado de Cristo. O Amor bíblico exige do barro a coerência de obedecer de modo submisso ao oleiro, sem julgar que a renúncia de vantagens pessoais configure ausência de graça ou legalismo.

O Amor de Deus, o Amor bíblico, entrega Cristo para a cruz. Entrega o Cordeiro inocente para a humilhação, a tortura, a dor e a morte, pois sabe que a leve e momentânea tribulação redundará num eterno peso de glória. E não somos melhores que o Cordeiro. Não estamos isentos de humilhação, tortura, dor e morte. E, se nós, japoneses, moradores da região serrana ou qualquer outro passa por isso, temos a certeza de que Deus está no controle e que todas as coisas contribuem para o bem dos que o amam e andam segundo o seu propósito.

Afinal, reconhecer que Deus é amor quando tudo vai bem é fácil. Difícil é confessar esse amor no meio do sofrimento, da perda, da lástima, do apedrejamento, da perda de entes queridos, de um casamento dissolvido, do desemprego, da fome, da miséria. Bem-aventurados os que creram nesse amor sem ter visto sua expresão poetica. Bem-aventurados os que não se guiam por vista, mas por fé. E, afinal… não é isso que é fé? Crer com perseverança no amor de Deus quando tudo ao nosso redor tentar nos fazer acreditar que Deus não nos ama?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.


Bem-vindo ao meu mosteiro

Publicado: 14/05/2011 em Pessoal

Não tenho o hábito de ler blogs. E por uma razão bem pós-moderna: a tirânica falta de tempo. Raramente paro o que estou fazendo para ler textos alheios aos livros ou aos trabalhos que me aguardam – impacientes. Por isso, quando o médico me recomendou como ferramenta antiestresse que criasse um blog e assim desse vazão aos meus pensamentos…só pude fazer uma careta. Uma careta em nada diferente das que minha filha faz quando a obrigo a sorver um xarope amargo. Todavia o médico sabe o que diz, creio num ato de fé. Imaginei que ele fosse me receitar um rivotril ou coisa que o valha, mas não: “Faça um blog, ponha seus pensamentos pra fora”. Não se fazem mais médicos como antigamente. Muito menos medicamentos. Mas decidi acatar sua sugestão, mesmo sendo heterodoxa – afinal é ele o sacerdote de Hipócrates e eu, um reles mortal. Vá lá então, que seja.

Meu Deus, mais um blog na face da Terra! Decidi, então, por puro respeito aos que aqui entrarem, que este blog não será um espaço barulhento: será um mosteiro. Neste canto silencioso da cyberesfera deixarei a pena escrever apenas para permitir que minhas reflexões e meus pensamentos reverberem para mim mesmo e para Deus, como um monótono canto gregoriano. Nos tempos antigos, os campesinos costumeiramente ouviam as vozes dos monges, que tomavam o ar ao redor dos monastérios medievais. Talvez com este blog aconteça o mesmo e meus devaneios respinguem em quem estiver em volta. Talvez o que aqui escreva encontre abrigo no teu coração. Talvez te convide a compartilhar de minhas reflexões silenciosas. Mas meu objetivo maior é tornar este blog um espaço terapêutico dos ecos da minha alma. Por isso, não se preocupe: não vou ficar insistindo que você entre aqui, nem incomodarei ninguém no twitter ou no facebook, implorando que leia minhas palavras. As depositarei aqui e, aqueles que assim desejarem, poderão observá-las e, então, saboreá-las ou rejeitá-las.

Não pretendo que este blog seja apologético, embora certamente vá expressar minha visão sobre os absurdos que vêm acontecendo na Igreja. Também não desejo fazer um blog teológico, a despeito de a teologia e as coisas de Deus correrem nas minhas veias e ocuparem a maior parte dos meus pensamentos. Não será um blog poético, certamente, até porque já há por aí pastores-poetas em excesso distorcendo as Escrituras Sagradas com base em poesias (e, devo reconhecer, meus talentos poéticos são extremamente limitados). Tampouco será um blog panfletário, apesar de sem dúvida abrigar convicções firmes. Naturalmente será um blog reflexivo, pois em meu mosteiro silencioso há espaço de sobra para pensamentos desvairados. De qualquer modo, será uma extensão daquilo que chamo de “meu eu oculto”.

No dia em que eu partir desta terra sei que a traça e a ferrugem vão carcomer estas linhas. Este mosteiro se tornará mais uma edificação descascada na poeira do tempo, ruínas que não entrarão para a história. Mas, até lá, quem sabe possamos trocar boas – ou más – ideias por aqui. E se de algum modo o brilho eterno desta mente sem lembranças tocar você, sinta-se convidado a passear comigo pelos átrios do meu mosteiro. Por aqui haverá um pouco daquele cheiro de mofo típico mas também um pouco daquela paz que só quem já visitou as dependências de uma casa de oração e reflexão conhece. É assim a minha mente. É assim que será o monastério das minhas ideias.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.