solidao1O rosto é sorridente. O aperto de mão, amigável. Quando lhe perguntam como está, a resposta é sempre “tudo bem”. Da hora em que chega à igreja até o momento em que se despede, todos acreditam que sua vida é repleta de felicidade. Mas, por trás de toda essa aparência, esconde-se uma pessoa extremamente solitária. Não deveria ser assim, mas a dura realidade é que nossas igrejas estão cheias de irmãos e irmãs que se encaixam nessa descrição, e que, embora escondam e não demonstrem, são muitos solitários. São cristãos, vivem em comunidade, vão aos cultos e cantam louvores, mas, na verdade, sentem-se sozinhos. Os laços com os demais são superficiais e frágeis e eles percebem que, na hora em que precisam de um ombro sincero, não o encontram. Por vezes, chegam a derramar lágrimas escondido. Poucas pessoas lhes telefonam, por isso se sentem como se ninguém estivesse nem aí para si. Olham a vida dos demais e acabam com a sensação de que todos são felizes e têm muitos amigos, menos eles próprios – o que os deprime. Apesar disso, por mais que se esforcem por ser amáveis e gentis na igreja, poucos demonstram interesse real por sua vida. Qual deve ser nosso papel junto a quem se vê nessa situação? Será que há algo que você possa fazer pelos milhares de solitários que transitam entre nós mas não demonstram, tocando a vida em meio à multidão mas tendo a solidão como companheira mais fiel? Qual é o remédio para a solidão?

Como cristãos, é importante prestarmos atenção a quem sofre, pois, sendo nós membros do Corpo de Cristo, temos o dever fraterno de zelar uns pelos outros, de acolher, amar, cuidar. Quando o pé sofre um corte, não é ele próprio que se aplica remédios, é a mão. Quando a panturrilha sente cãibras, é o pé que se alonga para aliviá-la, com a ajuda da mão, sendo que as costas se vergam para que a mão alcance o pé. O corte no dedo é levado à boca. E quando os músculos e tendões doem é dos olhos que descem as lágrimas.  Como integrantes de um todo, devemos cuidar dos irmãos. Mas que remédio podemos dar a eles?

solidão2Para conseguir auxiliar pessoas adoentadas pela solidão, quem não sofre desse mal precisa, antes de tudo, compreender que solidão não tem a ver com a quantidade de pessoas que te cercam, mas, sim, com a quantidade de pessoas que se preocupam com você. Muitas vezes descobrimos que alguém se sente solitário e nos perguntamos como pode, afinal, ele se relaciona com tanta gente! Chegamos a pensar que é frescura ou necessidade de atenção, pois não compreendemos que não basta ter pessoas em volta. O solitário não é um ermitão, é alguém que, embora viva em comunidade, não tem laços fortes de ligação com ninguém. Ele não sente falta de mais eventos na igreja, mas de alguém lhe diga: “Que saudade, liguei só para saber como você está”.

O solitário geralmente tem a percepção de que, se partisse desta vida, não faria muita falta. Pode até ser uma percepção equivocada, mas não é por ser uma visão distorcida que deixa de ser algo que o machuque. Muitos que olham de fora acham que o problema é culpa do próprio solitário, afinal, por que ele não se enturma? Por que ele não corre atrás? Basta se aproximar das pessoas! Bem, na verdade, correr atrás dos outros não satisfaz a solidão, pois não demonstra um real interesse do próximo. O solitário se sente desimportante na vida dos irmãos e vive uma real necessidade de ser amado e querido. Algo que ele não quer impor, pois precisa que ocorra espontaneamente. Correr atrás das pessoas não é o remédio para a solidão.

Como Igreja, precisamos estar constantemente atentos para os solitários que nos cercam. Devemos identificá-los e amá-los sem hipocrisia. A única forma de fazermos isso é saindo de nossa zona de conforto e indo até eles para buscar conhecê-los em profundidade, descobrir quem eles são e, a partir daí, criar vínculos verdadeiros. Não devemos amar os solitários como um gesto de caridade, “com pena” ou por “obrigação cristã”: precisamos buscar conhecê-los para criar laços verdadeiros de afeto mútuo e passar a amá-los de verdade. Temos de criar as circunstâncias para que eles de fato nos façam falta. Amizades não são apenas aquelas que a vida nos joga no colo, são também as que nos mexemos para construir. Mas, para o solitário, esse movimento partir dele não é um remédio muito eficaz, ele deseja ver interesse que parta das outras pessoas.

solidão3É bastante difícil para alguém que tem muitos amigos sinceros e vive numa atmosfera de amizade perene compreender a solidão. Quem vive imerso em amor não capta com facilidade a intensidade da dor que o solitário sente. O que fazer? Buscar em Deus a resposta. Em sua glória celestial, o Deus que é amor jamais sentiu solidão. Acompanhado, de eternidade a eternidade, pela Trindade santa, o Criador se basta a si mesmo e se complementa, vivendo numa unidade plural e singular que faz de si um ser pleno e absolutamente destituído de carência. No entanto, dos altos céus ele olhou para a humanidade solitária, despida da plenitude de Deus, e desceu à terra, fazendo-se solitário como os solitários, para nos devolver a capacidade de comungar para sempre com aquele que nunca nos deixará sós. E, ao fazer-se como um se nós, o Filho experimentou o gosto da solidão: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46), gemeu o Senhor agonizante. Por que Jesus decidiu vivenciar a dor dos solitários? Amor. Puro amor.

Meu irmão, minha irmã, há muitos solitários nas nossas igrejas. Peço a Deus que encha o seu coração do amor que é fruto do Espírito, para que você sinta em si a dor dos solitários e faça algo para cuidar de quem precisa urgentemente de calor humano. É aproximando-se de Deus que você terá discernimento para identificar as vítimas da solidão, frutificará em amor pelos tais e partirá em seu socorro com interesse genuíno. Ao fazê-lo, você estará permitindo que Deus o use para transformar a vida de tantos que precisam desse amor.

Afinal, já entendeu qual é o remédio para a solidão do seu irmão? Se você disse “Deus”… lamento, errou. Deus é o médico que aplica o remédio.  O remédio… é você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

propinaAs eleições estão se aproximando. Este período de campanha política costuma ser momento de muito bochicho sobre atos de corrupção nas esferas de poder, um mal que assola as instituições públicas. A verdade é que vivemos cercados de corruptos. Compre o jornal de hoje e você verá escândalos de corrupção ocuparem as primeiras páginas. Compre o de amanhã e verá também. E, provavelmente, continuará vendo por quase todos os dias de sua vida. Em geral, os casos de corrupção mais escandalosos são aqueles que ocorrem no governo, entre deputados, funcionários públicos, ministérios… esses são os que ganham mais visibilidade. E nós nos indignamos quando tomamos conhecimento disso, com toda razão. Afinal, não pagamos impostos para que nosso dinheiro vá parar numa conta na Suíça ou debaixo do colchão de algum político espertalhão – quando isso acontece é revoltante mesmo. Converse com qualquer pessoa do seu círculo de amizades e ela se mostrará indignada com a corrupção nas esferas de poder, na polícia, em empresas estatais, entre aqueles que ocupam cargos que lhes abrem grandes possibilidades de corromper e ser corrompidos. O curioso é que essas mesmas pessoas que metem o malho nos corruptos muitas vezes praticam atos de corrupção elas próprias. E, se pararmos para pensar, talvez nós mesmos sejamos corruptos e não tenhamos nos dado conta disso.

O jornal O Globo entrevistou o cientista político Alexandre Gouveia, que fez uma lista de quinze práticas de corrupção cotidiana. Veja se você pratica ou já praticou alguma(s) delas:

1. Não dar nota fiscal.

2. Vender ou comprar produtos falsificados e/ou contrabandeados.

3. Não declarar produtos comprados no exterior, para evitar o recolhimento de impostos.

4.  Não declarar rendimentos extras no Imposto de Renda.

5.  Usar o vale refeição para fazer compras no supermercado.

6. Estacionar veículos, utilizar filas prioritárias e assentos destinados exclusivamente para idosos e deficientes.

7. Vender seu voto ou trocá-lo por algum benefício pessoal, como emprego, material de construção, cesta básica etc.

8. Na escola, dar uma olhada na resposta do colega (a famosa “cola”).

9. Andar com o veículo pelo acostamento.

10. Evitar uma multa oferecendo dinheiro ao policial.

11.  Furar fila.

12. Fazer ligação ilegal de serviços como TV a Cabo, Energia Elétrica etc.

13. Apresentar atestado médico falso.

14.  Falsificar carteirinha de estudante para obter descontos e benefícios.

15.  Bater o ponto de trabalho para o amigo.

cola na escolaVocê pratica ou já praticou alguma dessas quinze ações? Se sua resposta foi positiva, tenho uma má notícia: você é um corrupto. Talvez pense que exista corrupção que seja “menos corrupção” do que outra. Biblicamente falando, não existe. “Quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente. Pois aquele que disse: ‘Não adulterarás’, também disse: ‘Não matarás’. Se você não comete adultério, mas comete assassinato, torna-se transgressor da Lei” (Tg 2.10-11). Assim, vemos que aquilo que você poderia considerar um simples “jeitinho” ou uma prática “que não faz mal a ninguém” é tão séria, ilegal, desonesta e grave como o escândalo do Mensalão, por exemplo. Por quê? Porque é uma questão de princípios, não de quantias. Se um político recebe milhões de propina para beneficiar uma determinada empresa numa licitação ou se você dá uma propina de algumas dezenas de reais a um policial para não receber multa, o erro foi o mesmo: propina. Quanto dinheiro estava envolvido? Aí já é um segundo aspecto, mas o primeiro já está definido: você corrompeu ou foi corrompido. O que faz de você um corrupto.

A casa construída porque você deu propina ao fiscal para liberar a obra é um atestado de corrupção. Sua carteirinha de estudante falsificada para pagar meia entrada é um atestado de corrupção. A nota da sua prova obtida espiando a prova do colega ao lado é um atestado de corrupção. O gato na sua casa é um atestado de corrupção. As horas de trabalho acumuladas mas não trabalhadas são um atestado de corrupção. Aquela caneta ou outro objeto que você levou do seu local de trabalho para casa sem autorização é um atestado de corrupção. Aqueles minutos que você economizou subindo com o carro pelo acostamento ou trafegando pela via exclusiva dos ônibus são um atestado de corrupção. A bandalha que você fez no trânsito é um atestado de corrupção. A comida que você comeu antes porque furou a fila do restaurante é um atestado de corrupção. Meu irmão, minha irmã, se a carapuça serviu, para mim ou para você… estamos mal na fita e não temos nenhuma moral para criticar os políticos corruptos.

propina2Claro que essa percepção não deve ter como objetivo desculpar os políticos corruptos nem deixar você com sentimento de culpa, mas conduzi-lo a uma reflexão acerca do seu comportamento. Não podemos, como Igreja de Cristo, acreditar que realizar “pequenas” transgressões (isso existe?) seja algo de menos importância e que não exija um profundo arrependimento de nossa parte. A proposta bíblica é que fujamos da corrupção que há no mundo: “Seu divino poder nos deu tudo de que necessitamos para a vida e para a piedade, por meio do pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude. Dessa maneira, ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo, causada pela cobiça” (2Pe 1.3-4). O termo no original grego que Pedro usou aqui e que foi traduzido em português como “corrupção” é “phthora”, que significa “decadência”, “ruína” (literal ou figurativa), “corrupção”, “destruição”. Dá o que pensar.

Ninguém é perfeito. Você não é, eu não sou. Já cometi ao longo da minha trajetória (inclusive após a conversão) muitos atos de corrupção, que, até mesmo, não achava na hora que tinham algo de mais mas, hoje, vejo que foram atitudes totalmente erradas. Sim, já me corrompi, por isso não falo de nada que eu mesmo não tenha vivido – para minha vergonha, mas também para minha constante percepção de quanto sou um miserável pecador e careço desesperadamente e diariamente da graça de Deus. Como servos e filhos do Deus santo, não podemos nos conformar em praticar irregularidades, desonestidades e atos que configurem desrespeito ao próximo e deixar tudo por isso mesmo. Porque, senão, estaremos nos conformando com este mundo, o que contraria os ensinamentos bíblicos (cf. Rm 12.2). Furar fila não é “só” furar fila, pelo contrário, é uma ação que demonstra que você não respeita o direito do próximo. Logo, você não está demonstrando amor pelo próximo e, portanto, está transgredindo o grande mandamento.

Convido você a um exame de consciência. Pense naquilo que tem feito e em como enxerga esse tipo de pecados que se convencionou chamar de “menores”. Eles não são menores, pois demonstram falta de temor pela santidade divina. Entenda, meu irmão, minha irmã, que meu objetivo com essa reflexão não é deixar você mal, mas, se perceber que tem pecado nesse sentido, conduzi-lo ao arrependimento e à mudança de atitude. Pense e ore. Identifica “pequenos” atos de corrupção em sua vida que o tornam tão culpado como os políticos ou policiais corruptos? A hora de mudar é esta. Peça perdão a Deus e dê uma guinada na sua atitude (Pv 28.13). Se fizer isso, encontrará misericórdia, será perdoado e poderá começar do zero. E, aí sim, terá moral para condenar os que roubam milhões dos cofres públicos.

cruzO maior escândalo de corrupção que pode existir é o da nossa própria corrupção. Pois é essa que nos fará prestar contas a Deus. Então, antes de se escandalizar com o que aparece nas manchetes dos jornais, fique chocado com aquilo que você faz e ninguém sabe. Porque, na verdade, Deus sabe – e sempre pega você em flagrante, sempre. As consequências podem não ser nada agradáveis. Errou? Confesse. Deixe. Mude. E a misericórdia celestial te alcançará. Foi para isso mesmo que Jesus morreu e ressuscitou. Ah, meu irmão, minha irmã, nós somos maus e falíveis e dependemos totalmente da graça de Deus. A boa notícia? Ela está ao nosso alcance e, por isso, te garante perdão total.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

racismo0O Brasil tem acompanhado o caso do jogo de futebol entre Grêmio e Santos que foi marcado pelas atitudes racistas de parte da torcida do time gaúcho. Para provocar o goleiro santista Aranha, que é negro, muitos gremistas o ofenderam, chamando-o de “macaco” e fazendo gestos que imitavam símios. Flagrada pelas câmeras de TV xingando o atleta de “macaco”, a jovem Patrícia Moreira tornou-se imediatamente símbolo da mentalidade discriminatória que domina não só gremistas, mas gente do mundo todo – racismo é uma pandemia abominável que está longe de acabar. Na última sexta-feira, a torcedora deu uma entrevista coletiva em que afirmou, bastante emocionada, estar arrependida. Em seguida, pediu perdão ao Grêmio – eliminado da Copa do Brasil por decisão da justiça esportiva – e ao goleiro ofendido. Muito além do esporte em si, o episódio é bastante significativo para extrairmos lições sobre a questão do pecado e do perdão.

Em sua entrevista, Patrícia transpareceu sinceridade e emoção, quando disse: “Boa tarde, eu quero pedir desculpas ao goleiro Aranha. Perdão de coração. Eu não sou racista. Perdão. Perdão. Peço desculpas. Aquela palavra, ‘macaco’, não foi racismo de minha parte, foi no calor do jogo, o Grêmio estava perdendo. O Grêmio é minha paixão, minha paixão mesmo. Eu vivi sempre indo ao jogo do Grêmio. Largava tudo para ir ao jogo. Peço desculpas para o Grêmio, para a nação tricolor. Eu amo o Grêmio. Desculpas para o Aranha. Perdão, perdão, perdão mesmo”.

Essa fala de Patrícia nos conduz a quatro reflexões.

racismo4Em primeiro lugar, falemos da falibilidade do indivíduo em função da influência dos grupos a que pertence. Não há como dizer que chamar um negro de “macaco” não seja um ato racista. Pode não ter sido a intenção de Patrícia fazer uma agressão racial ostensiva, mas creio que, a reboque da multidão, ela xingaria o goleiro de qualquer coisa que configurasse uma ofensa, como historicamente as torcidas fazem. Não me lembro de absolutamente nenhum jogo de futebol a que eu tenha ido na vida em que os xingamentos não sejam a tônica do público: xingam a mãe do juiz, ofendem a honra dos jogadores do outro time, escangalham a torcida adversária, gritam impropérios contra os atletas ou técnicos do time para que torcem se esses estiverem jogando mal ou perdendo. Isso não é novidade nenhuma. A questão é que a massa optou, nesse caso específico, por um xingamento que tem uma conotação diretamente ligada à raça de Aranha e, portanto, configura, sim, racismo. Pode ser que Patricia tenha apenas ido na onda e se deixado contagiar pelo poder das massas, mas o fato objetivo é que ela cometeu um ato de racismo – que, no Brasil, configura crime.

De cara, isso nos dá um alerta: cuidado para não se deixar levar pelo que os outros fazem. Seja fiel a si mesmo e a suas convicções sempre, esteja você sozinho ou em grupo. A influência alheia é uma das principais causas de pecarmos. A ciência já sabe muito bem que os indivíduos são altamente influenciáveis pelas massas e existem muitos estudos e pesquisas que comprovam como podemos ser facilmente influenciados pelos grupos ao nosso redor. Por isso, devemos tomar extremo cuidado com quem andamos, pois más escolhas de amigos sem compromisso com o evangelho ou mesmo de cristãos que se comportam de modo equivocado podem nos arrastar junto para o erro. Ouso dizer que, se Patricia estivesse sozinha no estádio, ela jamais teria ofendido Aranha daquele jeito. Ela fez o que fez porque estava no meio da multidão. Então temos de escolher com muito critério quem serão as pessoas com quem nos relacionamos, para não praticarmos atitudes pecaminosas por influência de terceiros.

racismo3Em segundo lugar, falemos da lei: Patrícia corre o risco de ser condenada à prisão pelo crime. E, se for, mesmo que de fato esteja arrependida, é justo que cumpra a pena. Ela, aliás, já começou a ser punida extrajudicialmente por seu pecado: foi demitida, teve a casa apedrejada, sofreu muitas agressões pelas redes sociais, é chamada de “racista” por onde passa, sua vida virou um inferno. Isso nos ensina uma lição: o pecado sempre terá consequências, é ingenuidade achar que é possível transgredir e sair impune, pois a justiça divina não é como a dos homens: ela nunca falha. Um dia a punição virá, nem que seja na eternidade. Além disso, o arrependimento sincero, com a confissão do pecado, não anula a necessidade de se arcar com a consequência humanas de seus atos. Um criminoso pode estar total e verdadeiramente arrependido, mas, ainda assim, terá de responder pelo que fez ante os homens. Portanto, se você se joga de uma ponte mas depois se arrepende, seu arrependimento não evitará que se esborrache lá embaixo. Cuidado com o que você semeia, pois a colheita pode ser de frutos bem amargos.

Em terceiro lugar, falemos do amor por instituições que justificariam a falta de amor ao próximo. Chamou minha atenção a explicação que, mesmo sem perceber, Patricia deu para sua atitude. Se você notar bem, verá que ela baseou seu argumento no fato de o time que ama estar perdendo. Em outras palavras, para ajudar a instituição que ama, Patricia, no calor do jogo, considerou justificável atacar um ser humano. Assim como ela, tenho visto muitos cristãos fazerem isso ultimamente. Para defender a Igreja de ataques de grupos cujos valores são anticristãos, partimos para a agressividade. Isso está totalmente errado. A “defesa do evangelho” não justifica jamais o uso da violência. Por isso, vejo como as massas se deixam contaminar por essa abominável visão de que, para defender a Igreja de Cristo, podemos partir para o ataque a seres humanos de outras religiões ou que professam valores diferentes dos nossos. Cristo pregou o amor aos inimigos, o perdão a quem é imperdoável, a não violência, a mansidão, o não revide, a pacificação, o não fazer justiça com as nossas mãos. Mas vivemos no meio de uma multidão de cristãos que se esquecem de tudo isso e acham justificável defender a Igreja que amam agredindo os seres humanos que nos atacam – e nisso pecamos. Que o erro de Patrícia nos sirva de lição, para que não nos deixemos convencer de que a defesa do que é puro e bom seja feita com atitudes impuras e más.

aranha1Mas é para o que vem em quarto lugar que eu gostaria de chamar mais atenção. Chegou a hora de falarmos, enfim, da graça. Fiquei pensando no que faria se eu fosse o goleiro Aranha e ouvisse Patricia pedir perdão de forma tão enfática. Se você contar, verá que ela pediu “perdão” e “desculpas” ao goleiro nove vezes. Pode ser que a jovem esteja fingindo arrependimento, mas não acredito nisso. Patrícia me pareceu sincera. Creio que tudo o que ela tem passado, desde que sua imagem tornou-se o símbolo nacional do racismo, foi o tranco que a despertou para compreender a extensão do seu erro. Não posso afirmar, mas acredito nisso – afinal, quantos de nós pecam e só se dão conta da lama em que estão quando são confrontados de forma dura pelas consequências de seu pecado? Davi passou por isso e só se arrependeu de seu duplo pecado ao ser confrontado por Natã no episódio de Urias e Bate-Seba e, depois, pelo profeta Gade, no episódio do censo. Pedro só chorou amargamente após ser confrontado pelo canto do galo e pelo olhar de Jesus. Eu mesmo já cometi pecados dos quais só me dei conta de sua extensão ao ser confrontado. E acredito que isso tenha ocorrido com Patrícia: foram a reação popular e tudo o que ela sofreu que a chamaram à razão. Se sua imagem não fosse parar na TV, possivelmente no jogo seguinte ela repetiria o gesto racista. Fato é que ela, confrontada pelo seu erro, dirigiu-se à pessoa a quem ofendeu e pediu perdão. E aí, como devemos nos posicionar diante disso?

A Bíblia é clara:

“Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.21-22).

“Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós” (Cl 3.13).

“Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6.37).

“E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas” (Mc11.25).

O desejo de Jesus é que perdoemos. Mais do que um desejo, aliás, é um mandamento. Perdoar nossos ofensores é uma atitude que nos dá vida espiritual abundante e nos conforma à imagem de Cristo – que nos perdoou quando não merecíamos. O Senhor, aliás, não apenas transmitiu esse preceito de boca, ele deu o exemplo, ao perdoar o traidor Pedro, ao pedir que o Pai perdoasse seus algozes na cruz, ao perdoar a mulher adúltera e em tantas outras situações. Com base nos ensinamentos bíblicos, diante de tão enfático pedido de perdão de Patrícia, se eu fosse Aranha a perdoaria. Talvez ela não mereça. Mas perdão não tem a ver com merecimento: é fruto de graça – que, por definição, é algo que recebemos sem merecer.

A prisão de Patrícia seria uma punição exemplar, um símbolo para todos de que o racismo é algo hediondo e não pode ser praticado sem consequências? Sim, sem dúvida seria. Mas o perdão de Aranha é um símbolo para todos de que é possível vencer o mal com o bem. No dia seguinte à entrevista dela, o goleiro se pronunciou e disse que a desculpava: “Estou desculpando ela, mas infelizmente, por um erro que cometeu, vai ter de pagar. Queriam que eu desse o perdão sem ela me pedir desculpas. Acompanhei todo o caso, os amigos dela mostraram que ela não é racista, mas ela sumiu, deletou perfis das redes sociais, não falou com ninguém. Demorou muito tempo para tomar uma atitude. Como cristão, como ser humano, precisava do pedido dela para desculpar. Isso não quer dizer que eu não quero que a justiça seja feita. Ela errou, tem as consequências”, comentou. Com o perdão de Aranha creio que os céus fizeram festa, pois um pecador se arrependeu e um ofendido perdoou seu ofensor.

racismo5Acho muito estranho quando ouço as pessoas dizerem que não perdoam alguém porque esse alguém “não merece”. Pois perdão não tem a ver com o mérito do perdoado, mas, sim, com a graça de quem perdoa. Deixar de perdoar um ofensor, mesmo que ele não nos tenha pedido perdão, não prejudica ninguém além de nós mesmos, que passamos a carregar um fardo espiritual doloroso e venenoso. Enquanto não aprendermos esse fato, seremos indivíduos amargos, que não estendem perdão e, por isso, vivem longe da vontade de Deus.

Não fui ofendido por Patrícia Moreira. Mas, se tivesse sido e ela pedisse perdão nove vezes, eu teria de escolher: ou me recusava a perdoá-la ou fazia o que Deus manda. Ela poderia até vir a ser presa, para cumprir a justiça dos homens, mas, diante de Deus, teria o meu perdão. Porque o cristianismo denuncia o mal da falibilidade humana e do desamor pelo próximo, aponta o remédio paliativo da lei e revela a cura final: a graça. E aí eu te pergunto: desses elementos, qual você acha que Deus valoriza mais? E qual você valoriza mais? A resposta a essas perguntas dirá em que profundidade você compreende o evangelho e mostrará se você é, de fato, um cristão segundo o coração de Deus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

primeiro amor1É muito conhecida a expressão “voltar ao primeiro amor”. Ela está em Apocalipse 2.4, quando Deus puxa a orelha dos cristãos da cidade de Éfeso por terem “abandonado o primeiro amor”. É interessante que, por causa dessa passagem, é popularmente difundida a ideia de que o “primeiro amor” é o estado ideal e a meta de todo cristão. Que sentir e fazer por toda a vida o que se sentia e se fazia no início da caminhada cristã é o que Jesus espera de todos nós. Particularmente, eu discordo disso. Por estranho que possa parecer, não penso que o primeiro amor seja o estado ideal para todos os cristãos. Para muitos sim, mas não para todos. Acredito mais que, em nossa espiritualidade, devemos procurar viver o “segundo amor”. Esquisito? Permita-me explicar.

Em geral, quando nos referimos a esse “primeiro amor”, o associamos a uma certa empolgação; a um sentimento de busca profunda de Deus; a uma vontade constante de evangelizar, de pensar e agir o tempo todo por Jesus. Sabe aquele sentimento de empolgação que você sente no início de um namoro? Seria mais ou menos a isso que associamos esse estado espiritual mencionado em Apocalipse. Só que, quando analisamos com calma o texto, vemos que não é bem isso o que ele diz.

primeiro amor2Veja: “Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores. Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome, e não tem desfalecido. Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor. Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele” (Ap 2.2-5). Repare que Deus dá ordem para se lembrar “de onde caiu”. No contexto bíblico do processo de queda e restauração do homem, “cair” é um verbo usado como sinônimo de “viver de modo pecaminoso” (cf. 1Co 10.12-13). Se dizemos “fulano caiu”, automaticamente compreendemos que ele está vivendo em pecado e sem arrependimento. Isso é reforçado pelo que é dito a seguir aos cristãos de Éfeso: que, se os membros daquela igreja não se arrependessem, sofreriam consequências. E qual tipo de cristão precisa de arrependimento? Quem pecou.

Se a ideia popularmente difundida for correta, viver uma espiritualidade menos impulsiva, menos empolgada, menos assemelhada a uma paixão de início de namoro seria um pecado que necessita de arrependimento. Só que não é. Ninguém tem seu “candelabro” removido porque tornou-se menos empolgado. Isso ocorre se foram cometidos pecados. Portanto, conclui-se que o problema dos efésios é que estavam em um estado de transgressão e necessitavam de arrependimento, para retornar a realizar “as primeiras obras”, ou seja, as práticas de santidade que faziam parte de sua rotina antes dessa queda. Era uma igreja dedicada, sofredora e apologética – como o texto bíblico descreve com clareza -, mas que estava envolvida em algum pecado.

Entendo, então, que o problema da igreja de Éfeso não era estar vivendo uma vida espiritual menos eufórica – visto que essa interpretação é  incompatível com o que o Senhor fala nos versículos anteriores -, mas estava incorrendo em pecados de que necessitava se arrepender. Não consigo ver o “primeiro amor”, portanto, como um estado de euforia pós-conversão, como muitos apregoam, mas sim o estado de santidade que devemos viver ao longo de toda nossa vida.

primeiro amor3Tendo dito tudo isso, permita-me explicar, então, por que acredito que o “segundo amor” é mais desejável que o primeiro. E aqui o conceito que uso é o popular. Muitos creem, pela interpretação que entendo ser equivocada, de Ap 2.4, que aquela euforia do período imediatamente pós-conversão é o estado ideal de vida espiritual do crente. Não vejo assim. O início da caminhada cristã é uma fase de imaturidade e impetuosidade, ignorância bíblica e limitação teológica. Nessa fase, o cristão responde à graça de Deus, recebe o chamado do Espírito Santo, mas ainda engatinha na fé, bebe leite espiritual, o que é um estado imperfeito, como Hebreus 5.12-14; 1 Coríntios 3.1,2 e 1 Timóteo 3.6 deixam claro. Não é o padrão que Deus deseja para nós. Ele quer cristãos maduros, fortalecidos na Palavra, experientes. Somos convidados a buscar a maturidade espiritual e não a viver eternamente naquele estado inicial de impulsividade, grande emotividade e enormes limitações. Deus quer que fiquemos firmes na rocha, com solidez – não com empolgação.

Façamos uma analogia, por exemplo, com um casamento. Pessoas recém-casadas vivem numa enorme euforia, numa empolgação só, como se a vida a dois fosse uma eterna lua de mel: fazem caminhos de pétalas da porta à cama, preparam as comidas preferidas do cônjuge, deixam bilhetinhos em lugares estratégicos… vivem alegres o conto de fadas. Mas, passados os primeiros anos de casamento, se não foi desenvolvida uma maturidade naquele relacionamento ele vai se desgastar. Virão as necessidades práticas do dia a dia, as contas, a perda do pudor de soltar gases na frente do outro, a mulher descobrirá que o marido ronca, o marido descobrirá que a mulher tem mau hálito de manhã… a magia começa a ser substituída pelo mundo real. E, então, quem dependia do conto de fadas para ser feliz no matrimônio vai se decepcionar, esfriar, viver infeliz, se divorciar. Pois, se aquele “primeiro amor” é o estágio que traz felicidade, lamento informar aos sonhadores: ele não vai durar para sempre.

primeiro amor4Portanto, é o “segundo amor”, o que se solidifica passada a fase dos cuticutis iniciais de um casamento, que vai sustentá-lo. A maturidade. O amor sólido e perene. A capacidade de continuar dando a vida pelo outro pelo resto de seus dias. As gracinhas dos primeiros anos de matrimônio passam. O que permanece é o amor verdadeiro e maduro. Na vida espiritual é igual. O cristão que acha que deve buscar aquele cuticuti inicial com Deus como o modelo de vida espiritual vai viver uma espiritualidade limitada. Vai querer sempre buscar emoções. Ficará insatisfeito quando não sentir nada no culto. Vai se tornar viciado na empolgação que viveu nos primeiros tempos de convertido. Mas Deus procura verdadeiros adoradores e não adoradores empolgados.

Assim, biblicamente, “voltar ao primeiro amor” é o que precisa fazer o cristão que passou a viver na prática do pecado. Ele tem de abandonar suas transgressões, lembrar-se de onde caiu, arrepender-se e voltar a realizar as obras que praticava no início – as boas obras, fruto da fé salvífica. Já o cristão que vive em intimidade com o Senhor e que, apesar de seus pecados, não se conforma com eles e se esforça em viver em santidade, esse deve viver o “segundo amor”. Maduro. Sólido. Consistente. Consequente. Duradouro.

“Esta é a minha oração: Que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção” (Fp 1.9).

Ao contrário do que diz a música, eu não quero voltar a esse “primeiro amor” que a cultura popular estabeleceu. Quero viver no “segundo amor”. Nas vezes em que eu descarrilei no meio do caminho, não só quis, mas precisei voltar ao primeiro amor. Mas, enquanto estiver nos trilhos, não. Pois desejo que minha vida com Deus seja uma linha ascendente, cada vez com mais intimidade, conhecimento, crescimento e maturidade. Uma evolução. E nunca um retrocesso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

autoestima1Como anda sua autoestima? Será que você ama a pessoa que vê no espelho ou tem dificuldade de valorizar a si mesmo? Não estou falando apenas de estética, mas de tudo aquilo que tem a ver com quem você é. Há pessoas que, se pudessem, pegariam suas malas e se mudariam para outra vida, por desprezar a própria aparência, por não apreciar seu intelecto, por detestar suas realizações ou simplesmente por crer que não valem tanto assim. Essa baixa autoestima acaba gerando pessoas tímidas, introvertidas, tristes, retraídas, deprimidas ou, até mesmo, revoltadas. Essa distorção na percepção de si mesmo acaba levando a vítima a tornar-se alguém pessimista, incapaz de acreditar no próprio valor. Ela tem medo de se expor para os demais e chega a sabotar a si própria para não ter de enfrentar os olhares alheios. Muitas vezes, a pessoa com baixa autoestima deixa de viver situações maravilhosas com receio da rejeição. Ela pensa montes de coisas, como “não vou conseguir”, “não vai dar certo”, “ninguém vai gostar”, “vão rir de mim”, “não sou capaz”, “o do outro é melhor”, “não sou bom o suficiente” e pensamentos semelhantes. Quem tem baixa autoestima se dá pouco valor. Muitos cristãos e cristãs, inclusive, sofrem desse mal. Como lidar com isso?

Precisamos compreender que ninguém nasce com baixa autoestima. Essa é uma característica que se adquire com o tempo, em decorrência de um evento ou de um processo que ocorreu em algum momento da vida. A pessoa pode ter sofrido críticas excessivas dos pais, bullying dos colegas ou algum outro tipo de rejeição social. Talvez fracassos sucessivos na área sentimental sejam a causa. Ou mesmo insucessos nos estudos ou na carreira. Muita coisa pode levar alguém a passar a menosprezar a si mesmo e acreditar que vale menos do que na verdade vale. Se é o caso, é necessário identificar em que momento e por que razão surgiu o problema e tratar essa ferida, seja com a ajuda pastoral, seja psicológica. Mas, além de amparo “especializado”, gente comum – como eu e você – pode contribuir enormemente para fazer o próximo acreditar no próprio valor.

elogioUma dos maiores antídotos contra o veneno da baixa autoestima é o elogio. É incrível como as palavras positivas e de afirmação são capazes de mudar vidas. Isso ocorre porque quem sofre desse mal pensa sempre que, por se enxergar negativamente, os outros também o enxergarão. Por isso, quando você começa a apontar as qualidades da pessoa, isso interfere profundamente na forma como ela se vê. Mas, assim como doses de um remédio, o elogio não pode ser administrado uma única vez, ele deve ocorrer com constância. Quando você começa a elogiar alguém com baixa autoestima, a primeira reação dele será de incredulidade, pois não acreditará no que você diz. Mas a constante afirmação das suas boas características e ações aos pouco farão efeito e ela começará a enxergar-se como alguém de valor. E entenda: não é inventar qualidades que a pessoa não tem, mas, sim, mostrar o que ela tem de bom mas não está enxergando.

Não fui eu quem inventou isso: foi Deus. Ele gosta de mostrar a seus filhos como eles são preciosos. Repare as verdades celestiais a nosso respeito, ditas por meio do apóstolo Pedro: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia” (1Pe 2.9-10). Uau! Haveria palavra de afirmação mais significativa que essa? Não sei como você se sente ao saber que é dessa forma que o Senhor te vê, mas eu me sinto especial. Raça eleita. Nação santa. Propriedade ex-clu-si-va de Deus. E isso sendo eu pecador até a medula! E você também. Com todos os meus e os seus defeitos é isto que somos: eleitos. Santos. Exclusivos.

elogio2Quando fala de Jó, o Pai se refere a ele com palavras extremamente elogiosas: “…ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (Jó 1.8). Depois, usa Lemuel para destacar as qualidades da mulher virtuosa (Pv 31.10-31). A Gideão, que se via desta maneira, “Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu, o menor na casa de meu pai” (Jz 6.15), o Senhor diz que o vê como um “homem valente” (Jz 6.12). O traidor Pedro é chamado pelo Mestre para apascentar seu rebanho, como se Jesus dissesse: “Tu não és traidor, és pastor”. No Sermão do Monte, Cristo afirma às multidões, inferiorizadas pelo domínio do Império Romano, que elas eram, na verdade, o sal da terra, a luz do mundo. E fecha com chave de ouro: “Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?” (Mt 6.26). Sim, Deus constantemente reafirma nosso valor.

Meu irmão, minha irmã, você sofre de baixa autoestima? Por vezes crê que vale muito menos do que vale? Talvez, até, pense que não vale nada? Então procure nas Escrituras aquilo que o onisciente Deus pensa a seu respeito. Sim, você é pecador, falho e cheio de problemas e defeitos. Mas, a partir do momento em que Jesus subiu à cruz por sua causa, não é nada disso que o teu Pai vê quando te olha. Ele te vê como filho. Luz do mundo. Eleito. Santo. Exclusivo. Comprado pelo preço mais alto do universo, o preço do sangue do Cordeiro.

Você pode achar que vale pouco ou nada. Mas sabe quanto você vale aos olhos do teu Pai? Bem, na verdade, não há como responder essa pergunta, pois, para Deus, você simplesmente não tem preço.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

bebe1Minha filha faz coisas esquisitas. Já comentei aqui no APENAS que ela, para minha surpresa, gosta de ópera. Quando descobri isso, acreditei que a coisa pararia por aí, mas tenho me surpreendido a cada dia com seu gosto, digamos, peculiar para uma criança de apenas 3 anos. O óbvio seria ela pedir para assistir a DVDs da Galinha Pintadinha, Aline Barros e similares. Não que ela não goste de coisinhas produzidas para crianças da sua idade, ela gosta, mas o que me espanta é que a pequena tem demonstrado apreciar o que eu jamais imaginaria. A verdade é que ela muitas vezes faz escolhas que me surpreendem. Recentemente ela viu o balé “O quebra-nozes”. Não só amou como, desde então, fica cantarolando temas musicais e comentando cenas desse balé de Tchaikovsky. Recentemente vimos, também, uma apresentação de nado sincronizado e ela passou a pedir sempre para ver mais. Ou patinação no gelo. Saltos ornamentais. Ginástica de solo. Apresentações de orquestras sinfônicas. Montagens do grupo Stomp. Blue Man Group. Exposições de moedas antigas (!) em museus. E por aí vai. Eu acreditava que, a esta altura da vida dela, eu só estaria lhe contando histórias da Carochinha, mas a Chapeuzinho Vermelho e os três porquinhos já não a atraem mais há um bom tempo. De onde minha filha tira esses gostos esquisitos, que contrariam a lógica de sua idade, eu não sei. Apenas vejo que faz parte de sua natureza apreciar manifestações culturais, artísticas e esportivas que costumam dar sono ou tédio a crianças de 3 anos.

Será que Deus também nos considera esquisitos? Essa realidade de minha filha me faz cogitar o que Deus pensa das preferências de seus filhos. Será que ele olha para mim e se pergunta “Que escolha bizarra, de onde o Maurício tirou isso?!”. Bem, claro que, sendo ele onisciente, não precisa se fazer esse tipo de questionamento, Deus sabe tudo. Mas, nas minhas reflexões esquisitas, me pego pensando o que o Pai acha da forma como procuro ocupar meu tempo.

Evidente que isso exige uma enorme dose de imaginação, mas tente pensar com a mente de Deus. O que você crê que ele considera formas normais de ocuparmos nosso tempo? Procure comparar aquilo que o Pai imaginaria que gostaríamos de fazer como filhos do Deus vivo e aquilo que de fato fazemos. Na sua opinião, você gasta as horas de seu dia fazendo o que o Senhor espera de você? Confesso que, quando penso nisso, me vejo decepcionando muito a Deus. Eu não usaria a palavra “surpreendendo”, pois nada surpreende o Onisciente, mas creio que entre aquilo que ele consideraria óbvio que eu fizesse e o que de fato faço deve haver uma enorme distância. Pensemos nisso.

bebe2A primeira coisa que um Pai espera de seus filhos é que se relacionem com ele, por amor. No entanto, diariamente priorizamos atividades que nos roubam dos momentos de comunhão com Deus. Quando eu deveria estar orando ou estudando a Palavra, mas opto por ver um filme qualquer na televisão, imagino que o Senhor olhe para mim e pense: “Esse meu filho é esquisito… que escolha mais sem sentido…”. Outra forma de ocuparmos nosso tempo de modo surpreendente para um cristão é ao darmos as costas para atividades que beneficiem o próximo. Leio Mateus 25 e vejo com clareza quanto o Pai valoriza que seus filhos priorizem ações em favor das outras pessoas. E aí paro para pensar quantas vezes, digamos, no último mês, eu dediquei minhas forças a fazer o que tem como objetivo abençoar meus irmãos e minhas irmãs… e morro de vergonha, por ter feito tão pouco. Sou ou não um filho de Deus muito esquisito?

É esperado que um filho do Rei ocupe a maior parte de seus tempo e de suas energias com as coisas do reino, com aquilo que tem mais valor para o reino. Não exclusivamente, mas prioritariamente. Lazer, descanso, compras no supermercado, consultas médicas… tudo isso é lícito e tem o seu espaço e o seu momento. O que nos torna cristãos muito esquisitos é quando atividades que nada têm a ver com nossa cidadania celestial tomam o tempo e as forças que deveriam estar sendo utilizadas nas coisas mais importantes aos olhos do nosso Pai. Isso fica claro para mim quando vejo que o adolescente Jesus ficou no templo de Jerusalém debatendo com os mestres sobre as coisas de Deus. José e Maria acharam sua atitude muito esquisita, mas o que o jovem Cristo estava fazendo era simplesmente priorizar aquilo que seria óbvio para alguém como ele: cuidar das coisas de seu Pai.

tempoPenso que devemos fazer o mesmo. É muito fácil a rotina e o corre-corre do dia a dia nos distraírem e desviarem nossas atenções para longe das coisas de Deus. Mas Jesus foi bem claro ao estabelecer as prioridades: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça… ” (Mt 6.33). Será que temos feito isso? Será que priorizar o reino e a sua justiça se resume a ir à igreja uma ou duas vezes por semana e a ouvir musicas evangélicas? É isso que faz de nós filhos exemplares ou apenas filhos esquisitos aos olhos de Deus?

Precisamos entender o que um filho de Deus é chamado para fazer. Em outras palavras, o que é esperado de nós. Mais precisamente: o que Deus espera de você.

Amo minha filha e desejo que tudo o que ela faça sejam ações que me encham de orgulho. É natural que seja assim, é o que qualquer pai espera de seus filhos. Inclusive o Pai celestial. Agora, analise como tem ocupado suas horas, seus dias. Se você fosse o Senhor, se orgulharia da forma como vem priorizando seu tempo ou acharia as suas prioridades muito esquisitas? Será que você tem feito aquilo que Deus gostaria que você estivesse fazendo?

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

escravo1Você é a favor da escravidão? Pode parecer estranho e até ofensivo eu te perguntar isso, afinal, nenhum ser humano civilizado considera a escravidão humana algo correto, não é mesmo? Bem, na verdade, até pouco mais de um século, aqui mesmo no Brasil, milhões de pessoas civilizadas e cultas acreditavam que ter escravos humanos era algo totalmente normal e cabível. Como pode? Como pode tantos indivíduos bons e até mesmo cristãos terem visto essa prática abominável como aceitável? Eu estava vendo fotos do acervo do Instituto Moreira Salles que mostram escravos no Brasil há apenas cerca de 130 anos. As imagens me impactaram e comecei a refletir sobre a escravidão. Meu primeiro impulso foi o de condenar aquela sociedade, que abraçava como natural a ideia de que pessoas podem ser donas de outras e fazer com elas o que quiserem. Mas, pensando mais um pouco, acabei chegando à conclusão de que, se eu vivesse no Brasil daquela época, também não teria problemas com a escravidão. Possivelmente, eu mesmo teria alguns escravos. Por quê? Porque estaria tão inserido naquela realidade que nem gastaria muito tempo pensando sobre a validade daquilo. Na verdade, estaria tão acostumado com aquela situação que minha mentalidade seria: sempre foi assim, sempre será; é como é, não há o que questionar. E essa constatação me conduziu a uma percepção espiritual: eu sou a favor da escravidão. Permita-me explicar.

Você já assistiu ao filme “O show de Truman”? Se não, recomendo que o faça, é um dos longa-metragens mais interessantes a que já assisti. Narra a história de um homem que viveu toda sua vida num gigantesco estúdio de televisão. Todas as pessoas com quem convive são atores, num grande reality show. Sua vida não passa de uma enorme mentira, mas ele vive anos nessa loucura sem perceber. Em certo momento do filme, um repórter pergunta para o diretor e idealizador do show: “Por que o senhor acredita que Truman nunca percebeu que está num programa de televisão?”. A resposta dele é muito significativa: “Nós aceitamos a realidade do mundo conforme nos é apresentada”. Isso explica com clareza por que milhões de pessoas boas acatavam a escravidão como normal: elas nasceram numa realidade em que aquilo era natural, cresceram aprendendo que não havia nada de mais na escravidão e, por isso, nunca questionaram aquela barbárie.

escravo0Nascemos escravos do pecado. Crescemos escravos do pecado. No mundo, enxergamos a escravidão ao pecado como algo aceitável. Enquanto as correntes da transgressão prendem nossos pés, não questionamos essa situação. Vemos como algo natural a desobediência a Deus, afinal, a realidade que nos foi apresentada pela sociedade ao nosso redor é a da escravidão ao pecado – e a temos como normal. Até que, um dia, uma alternativa se descortina diante de nossos olhos: Jesus nos dá carta de alforria. Percebemos, então, que é viável uma vida que se desagrada do pecado. É impossível nos livrarmos totalmente das algemas que nos prendem à transgressão, mas o Espírito Santo nos mostra que podemos não nos conformar a ela. “Porque, se fomos unidos com ele [Jesus] na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos [...] Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6.5-6, 17-18).

Até aqui nenhuma novidade. Tenho certeza de que você já sabia que a salvação em Cristo no torna livres da escravidão do pecado. Você é chamado pela graça de Deus e, com isso, torna-se absolutamente, totalmente, inquestionavelmente livre, certo?

Errado.

Eis o ponto fundamental: na verdade, a salvação não vem para nos tornar livres da escravidão. Ela vem apenas para mudar o nosso dono. Continuamos escravos, mas não mais do pecado: de Cristo. “O que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo” (1Co 7.22). Ou seja: deixamos de ser escravos do pecado para nos tornarmos escravos de Jesus. Nesse sentido, sou, sim, totalmente a favor da escravidão e me contento com essa realidade, apresentada não mais pelo mundo, mas pelas Escrituras sagradas. “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22).

A grande diferença entre esses dois tipos de escravidão é que o pecado nos torna apenas escravos – seres abatidos, sem vontade própria, destituídos de liberdade. Porém, ao nos tornarmos escravos de Cristo, recebemos também outros títulos: somos feitos filhos de Deus, amigos de Jesus, herdeiros da eternidade, verdadeiramente livres! “Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.34-36). Ser escravo de Cristo significa receber alforria não para ser um indivíduo autônomo e independente, mas totalmente acorrentado à liberdade que a vida eterna nos concede. Portanto, aceite a escravidão, ela é uma realidade inevitável.

escravo2Infelizmente, mesmo ao nos tornarmos escravos de Cristo algumas correntes de nosso antigo senhor continuam atadas aos nossos membros. Por isso, embora tenhamos sido chamados pela graça à servidão a Deus, continuamos sendo puxados de volta à senzala do pecado. É o que Paulo escreveu: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (Rm 7.14-25).

Não tem jeito, meu irmão, minha irmã, você é e será sempre escravo. A questão é: de quem? Se Cristo te chamou pela graça, você pertence ao Senhor, mas saiba que o pecado não ficou feliz com essa mudança. O pecado quer você de volta. Não permita que isso aconteça, lute pela sua servidão ao único amo que oferece a paz, Jesus Cristo. A cruz te libertou, mas o Diabo quer manter você acorrentado. O que te manterá longe da senzala da transgressão é a sua santidade. Muitas vezes fraquejamos, caímos, perdemos a batalha, nos arrastamos como cães ao antigo vômito da escravidão ao pecado. Mas Jesus não se conforma com isso, pois você pertence a ele. Então ele te chama constantemente ao arrependimento e, se você rende sua vontade a ele, o perdão sempre está ao seu alcance.

Você é cristão mas tem cedido ao pecado? As correntes da desobediência o têm arrastado de volta ao lugar de onde saiu? Você tem praticado novamente aquilo de que Jesus já te libertou? Então a hora é esta: ouça a voz do Bom Pastor chamando-o de volta. Peça perdão. Abandone essa prática. Você pertence a Cristo e foi chamado para habitar não mais nas imundas senzalas do pecado, mas nas puras mansões celestiais. Você é escravo da liberdade. Não abra mão disso.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício